sábado, 17 de março de 2007

A visita do presidente Bush e a questão do álcool

Leia abaixo artigo do ombusdman da Folha criticando a cobertura do jornal sobre este assunto:

O caso etanol

A visita do presidente George W. Bush ajuda a exemplificar o tamanho e a gravidade do problema que a Folha pretende enfrentar. Não tenho condições de analisar a cobertura de ontem e de hoje porque escrevo a coluna na sexta-feira. Mas a análise dos textos publicados de 1º de março até anteontem -o período de preparação e apresentação da viagem- mostra que ela teve alguns poucos focos: as negociações em torno do álcool combustível, a incômoda presença do presidente Hugo Chávez, da Venezuela, a política dos Estados Unidos para a América Latina e as questões relativas a segurança, organização da viagem e transtornos em São Paulo. Esses foram os principais eixos da cobertura.De 89 textos (reportagens, notas, artigos e editoriais) que analisei, 30 se referiam de alguma maneira ao etanol. Praticamente todos tinham o mesmo ponto de vista, de que o biocombustível será a saída econômica para o Brasil e, quiçá, para a humanidade. Independentemente das divergências com os Estados Unidos em relação à taxação do álcool exportado pelo Brasil, a maioria absoluta dos textos não abriu espaço para os questionamentos de economistas, agricultores e ambientalistas que têm objeções à expansão desmesurada da exploração da cana-de-açúcar para a fabricação do álcool. "Há uma euforia no governo", registrou uma das reportagens da Folha. Pode-se dizer que o ânimo é o mesmo na imprensa.Encontrei pouquíssimos registros de opiniões divergentes, céticas ou, pelo menos, preocupadas com a tal euforia. A manifestação mais importante virou uma nota insignificante: "Para ONU, álcool é ameaça à Amazônia - Achim Steiner, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, teme que, para suprir a demanda internacional, áreas da floresta sejam usadas para o plantio de cana-de-açúcar" (6/3).O colunista Vinicius Torres Freire registrou em dois artigos que "a preocupação ambiental cresce" e deixou as perguntas: "Há risco ambiental na expansão da cana? Pior de tudo: o que vai ser dos milhões de empregados e desempregados pelo setor, com o avanço das máquinas de colheita e com a míngua da pequena lavoura?" Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, em entrevista ao jornal mencionou que "há preocupações entre os ambientalistas de que a demanda por álcool vai fazer aumentar a demanda por terra" e que "como em tudo, quando você resolve um problema, pode criar novo leque de problemas".Nem mesmo nos protestos contra a visita de Bush as vozes discordantes puderam se expressar. Há a informação de que várias organizações condenaram as negociações com os EUA em torno do álcool, há as aspas de um bispo dizendo que a perspectiva é "sinistra", mas não há espaço para os argumentos. Em um relato de uma das manifestações, o jornal chega a escrever que "eles protestaram contra (...) a cana-de-açúcar", como se isso tivesse alguma lógica. A impressão que os textos dos jornais passaram foi que se tratava de bandos de malucos radicais.

O original deste artigo encontra-se neste link.

terça-feira, 13 de março de 2007

Fontes Energéticas

Leia abaixo artigo publicado no Le Monde Diplomatic de março, sobre o assunto fontes de energias alternativas - estudado em sala nas últimas aulas.


ALTERNATIVAS

Como evitar a catástrofe climática

Falta incluir, no debate sobre o aquecimento da Terra, um dado essencial. As energias limpas já são uma alternativa viável. A humanidade só permanece refém dos combustíveis fósseis e nucleares porque a mudança de paradigma ameaça os interesses de mega-corporações
Hermann Scheer
No que diz respeito às fontes mundial de energia, há boas e más notícias. As más? O petróleo acabará. As boas? O petróleo acabará. E não somente ele: cedo ou tarde, todas as energias fósseis terão o mesmo destino — até mesmo o urânio que alimenta as centrais nucleares.
Disponível na forma liquida, fácil de utilizar, o petróleo tornou-se a energia mais comum, "o ouro negro" do século 20. Mas sempre foi evidente que se esgotaria um dia. Como ninguém sabia exatamente quando, o problema foi deixado de lado. O clima alarmista que reina entre os chefes de Estado mostra que administravam a questão no dia-a-dia, enquanto crescia a dependência a esse recurso em declínio.
Na verdade, a questão de saber quanto tempo ainda irão durar as reservas não está entre as primeiras preocupações, porque, antes que se esgotem os recursos disponíveis, o mundo "civilizado" terá atingido um nível insuportável de destruição ambiental. Se acreditarmos nos resultados das pesquisas do Grupo Intergovernamental sobre a evolução do clima (GIEC) [1], seria necessário reduzir ao menos 60% das emissões de gás responsável pelo aquecimento da atmosfera terrestre até o ano 2050, para evitar um enorme colapso econômico e ecológico.
A segunda questão diz respeito às conseqüências do aumento dos preços da energia, tanto para a economia mundial como para as economias nacionais. Esta alta contínua é provocada por diversos fatores. A era do petróleo fácil de extrair (petróleo convencional) está encerrada, o que explica a busca de energias fósseis não convencionais. Mas elas são insuficientes para satisfazer ao aumento do consumo de combustíveis, provocado pelo desenvolvimento de países como a China e pela multiplicação de deslocamentos no planeta. E o custo da infra-estrutura necessária para extração eleva-se cada vez mais, à medida em que se torna necessário explorar os últimos recursos existentes.
Diante da ameaça climática, retórica e covardia
As incertezas políticas constituem um quarto fator. Em um mundo cada vez mais instável política, econômica, cultural e socialmente — devido, entre outras razões, à liberalização dogmática — estas crises têm todas as probabilidades de se agravar. O principal desafio logístico é fornecer continuamente petróleo, gás e urânio, para o mundo inteiro, a partir de alguns lugares e países produtores, utilizando importantes redes de transporte. Esta vulnerabilidade provoca um aumento dos custos políticos e militares com segurança — por exemplo, para proteger os meios e os centros de fornecimento dos ataques terroristas.
Os custos crescentes tornam a armadilha energética cada vez mais perigosa. Os países em desenvolvimento sofrem um golpe dramático por serem obrigados a pagar os preços do mercado mundial. Em muitos casos, as importações de produtos energéticos absorvem toda a receita das exportações. Em 2005, o custo do petróleo, para tais nações, aumentou em 100 bilhões de dólares, o que representa muito mais que o conjunto da ajuda ao desenvolvimento oferecida por todas as nações industrializadas. Enquanto isso, os ganhos das grandes corporações petroleiras aumentaram de maneira astronômica: em 2005, a Exxon teve um lucro de 35 bilhões de dólares; a Shell, de 25 bilhões; a British Petroleum (BP) 22 bilhões [2]...
Muito antes dos recursos estarem realmente esgotados, convém ressaltar o estado precário e calamitoso do sistema mundial de fornecimento de energia primária. As iniciativas tomadas na reunião do G8 em São Petesburgo, em julho de 2006 foram uma tentativa de solucionar essas crises. Esforços ilusórios: o recurso, no mundo inteiro, à energia nuclear e ao "carvão limpo", para produzir eletricidade, parte do princípio de que o sistema energético mundial poderia permanecer o mesmo, caso não houvesse o impacto das emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa e a mudança do clima.
Crescem as pressões junto aos países fornecedores, para que aumentem sua produção, e para que as redes internacionais de fornecimento sejam reforçadas, em total contradição com os objetivos de proteção da natureza e do clima. Apresentadas retoricamente como saída, as energias renováveis, são, na prática, consideradas apenas marginalmente. Há muito tempo deveriam ter se transformado numa prioridade estratégica absoluta.
Os insustentáveis argumentos contra a energia limpa
Alega-se que o potencial das energias “renováveis” não é suficiente para substituir as energias nucleares e fósseis, e que seria oneroso desenvolvê-las em grande escala. Afirma-se que a mudança levaria muito tempo — o que equivale a manter, por décadas, a matriz energética atual. Sugere-se, por fim, que o problema de estocagem das energias renováveis ainda não foi resolvido.
Nenhum dos argumentos acima, se bem analisado, é convincente. O potencial das energias renováveis é astronômico. A utilização direta ou indireta da energia solar, do vento, da água, da biomassa e das ondas hoje desperdiçada — sob a forma de vento não captado, de calor solar não recuperado etc. –- forneceria um volume de energia 15 mil vezes superior à consumida pela a humanidade. Uma usina eólica pode ser instalada em uma semana, enquanto uma central térmica clássica requer entre cinco a quinze anos. Já existem soluções para corrigir a intermitência de elementos geradores como a luz solar e os ventos [3].
As possibilidades de ampliar rapidamente a participação das energias renováveis na matriz energética, até constituir sistemas totalmente limpos foram expostas em diversas ocasiões: desde 1978, o grupo de Bellevue [4] desenvolveu cenários para a França. Nos EUA, a Union of Concerned Scientists faria o mesmo para os Estados Unidos [5].
Na Alemanha, a prova dos nove: é possível mudar a matriz
Os únicos custos diretamente ligados à produção de energias renováveis são os do desenvolvimento tecnológico. Os custos dos combustíveis seriam eliminados – exceto no caso da biomassa, já que o trabalho agrícola e florestal deve ser remunerado. Os custos dos equipamentos diminuirão com o desenvolvimento da produção em grande escala e a melhora contínua das tecnologias. Enquanto isso, os preços da energia convencional tendem a aumentar constantemente.
Ao mesmo tempo, as energias renováveis oferecem vantagens políticas e econômicas significativas. A importações de energias fósseis é substituída por fontes permanentes, e disponíveis em todos os locais. Reforça-se a segurança energética, com impacto positivo na balança de pagamentos. Novo impulso às estruturas econômicas regionais baseadas na agricultura e nas trocas. A necessidade de infra-estruturas será amplamente reduzida. Tudo isso sem falar dos graves danos ao meio ambiente e à saúde que seriam evitados. Quanto mais diminuir o uso de energias convencionais, mais importantes serão os efeitos.
Utópico? Irrealista? A lei alemã sobre energias renováveis, adotada na primavera de 2000, demonstra o contrário. Os estímulos oferecidos asseguraram, desde o ano 2000, um aumento anual de 3.000 MW na capacidade de produção de eletricidade através de fontes de energias renováveis. O acréscimo total supera 18.000 MW. Um aspecto importante da lei é proporcionar, a cada produtor de energia renovável, acesso à rede nacional de distribuição e tarifa assegurada por 20 anos — o que garante o retorno dos investimentos. Os custos do incentivo são repartidos entre todos os consumidores, e não passam de 5 euros por pessoa a cada um ano.
O novo setor industrial já criou 170 mil empregos [6]. Nenhum programa político de apoio à industria custou tão pouco e alcançou tantos resultados em tão pouco tempo! E se o público aceita os custos suplementares é porque está de acordo com o objetivo a ser seguido. Em seis anos, os custos de investimento caíram 40%, graças ao aumento de escala na produção. Essa mudança energética diminuiu as emissões de CO2 em 7 milhões de toneladas adicionais a cada ano. Ou seja: a lei, enquanto instrumento da política ambiental, teve muito mais efeito do que o mercado de quotas de emissão de CO2, um dos instrumentos criados pelo protocolo de Kioto. E tudo isso foi obtido sem necessidade de burocracias.
Se o processo continuar no mesmo ritmo, a produção de eletricidade de origem nuclear e fóssil terá sido inteiramente substituída em aproximadamente 40 anos. Os custos adicionais diminuirão, inclusive devido do aumento dos preços das energias convencionais. Mesmo antes do ano 2020, o preço da eletricidade renovável será menor que o da eletricidade gerada nas novas centrais nucleares e térmicas, acelerando ainda mais a transição energética.
Por que a mudança energética assusta as corporações
Um potencial de substituição similar existe no terreno do aquecimento. Graças às fontes renováveis, já existem residências auto-suficientes em energia, e brevemente haverá arranha-céus [7]. O montante dos investimentos é compensado, em dez ou vinte anos, pela economia de combustíveis alcançada. O desenvolvimento de carros híbridos deve permitir igualmente substituir os combustíveis fósseis por biocarburantes e motores elétricos, utilizando novas tecnologias de bateria.
A possibilidade de caminharmos para um mundo pós–fóssil e pós-nuclear não é vista como viável. Ao contrário, é constantemente negada. Nosso sistema superado, com suas estruturas de empresas associadas, é tido como eterno. Tem-se como definitivo que ele é tecnicamente neutro, em relação às outras fontes de energia — cujos custos são vistos de maneira isolada, quando seria necessário comparar sistemas energéticos em sua totalidade. Essa visão mostra completa falta de conhecimentos sobre tecnologias de produção de energia.
A escolha da fonte primária de energia determina o esforço político, econômico e tecnológico necessário para sua extração, transformação, transporte e distribuição — sem esquecer as tecnologias de utilização. É evidente que a mudança para as energias renováveis — portanto, para fluxos energéticos totalmente diferentes — muda tudo.
Supõe passar de energias primárias comerciais a fontes não comerciais; de poucas usinas e refinarias a um maior número de unidades de pequeno e médio porte; de infra-estruturas internacionais, a estruturas regionais; de energias poluidoras a energias limpas que não emitam gáses de efeito estufa. Enfim, significa passar das estruturas concentradas, como grandes empresas e propriedades, a formas de organização mais diversificadas. A mudança sistêmica em matéria de fornecimento energético representa uma mudança de paradigma em termos tecnológicos, econômicos e políticos. É aí, na verdade, que está o nó da questão.
Tradução: Celeste Marcondescelmarco@uol.com.br